'As drogas venceram mais uma vida', diz mãe de mulher assassinada em Campina Grande


Nos corredores do Núcleo de Medicina e Odontologia Legal (Numol) de Campina Grande, a professora aposentada Irene Nunes aguardava a liberação do corpo da filha dela, Poliana Nunes Lourenço, 31 anos. Ela foi encontrada morta na madrugada desta segunda-feira (20), no bairro José Pinheiro, com marcas de oito facadas no corpo.

Segundo a investigação da Polícia Civil, o assassino entrou na casa dela com permissão, pois não havia qualquer sinal de arrombamento, mas ainda não há informações sobre possíveis suspeitos.

Enquanto aguardava o corpo da filha, Irene concedeu entrevista à TV Paraíba, onde contou parte da história que levou Poliana ao consumo de drogas. A mãe acredita que o crime não teve motivação por dívida de tráfico de drogas, mas sim por problemas com relacionamentos que filha tinha enquanto estava pelas ruas consumindo drogas.

No relato da mãe, um desabafo de quem por muitos anos tentou ajudar a filha. “Ela entrou logo cedo, quando tinha 12 anos. Começou andando com companhias ruins. No lugar de ir pra escola, ia pra favela, pra casa dos drogados. Eu fiz de tudo como mãe. Dei amor, cuidei dela. Mas não tive como defender do mundo das drogas”, disse a mãe.

Poliana foi mãe de três filhos. O mais velho era deficiente e morreu aos 15 anos de idade. Os outros dois filhos eram de 14 e 6 anos. “Desde o momento que começou a usar crack, ela destruiu tudo. Ela começou a vender tudo e a gente chegou a ficar sem roupa pra vestir. Ela tinha um filho especial e vendia até o respirador dele. Outra vez, o pai correu atrás dela porque ela estava com o último ventilador para vender e usar drogas”, contou Irene.


Segundo a mãe, Poliana chegou a ser presa depois que foi flagrada com um namorado suspeito de tráfico de drogas, em João Pessoa. A família mudou para Ingá e também para Campina Grande, na tentativa de evitar novos problemas.

“Ela não se controlava. Coloquei em quatro clínicas, mas ela fugia. Uma vez ela saiu de Caruaru, em Pernambuco, andando e pedindo carona pra conseguir voltar pra favela. Fui buscar ela dentro da favela e levei ela pra casa sem nada, porque ela tinha vendido tudo. É como se a droga fosse um Deus para ela. Quando faz falta e não tem pra usar, eles fazem de tudo”, conta a mãe.

No fim da entrevista, Irene Nunes falou sobre o sentimento com a morte da filha e sobre a luta travada contra as drogas.

“Tá um vazio muito grande. Porque as drogas venceram mais uma vida na terra. Minha filha passou 20 anos tentando sair e me dizia: 'Eu quero ir pra casa passar um Natal, um Dia das Mães com a senhora, mas eu não consigo'. Ela não passava uma hora sem usar. Toda mãe que tem um filho nas drogas sabe o que estou passando, porque a gente se sente desarmada”, disse.

Investigações da Polícia Civil

De acordo com a delegada de homicídios responsável pelo caso, Nercília Dantas, a Polícia Civil foi acionada ao local pela Polícia Militar, após a mulher ter sido encontrada morta dentro da casa onde morava em Campina Grande.

“Nós fomos chamados até o local pela PM, a vítima aparentemente morava sozinha, ela tinha 31 anos, era natural de João Pessoa e há cerca de um ano estava morando em Campina Grande. Nós contamos com a ajuda da população no sentido de informar e fazer a denúncia do fato”, contou Nercília.

Conforme a delegada, a Polícia Civil ainda tem poucas informações tanto sobre o que aconteceu, quanto sobre a vítima. “O que nós soubemos é que a neta da proprietária da casa escutou um som alto e foi até a casa pedir pra baixar, o local estava com a porta aberta e, quando ela entrou, encontrou a mulher morta a facadas”.

Segundo a perícia, a vítima foi morta com cerca de oito facadas no pescoço e na cabeça. “No local não havia sinais de arrombamento, então provavelmente quem entrou lá foi com a permissão dela ou a conhecia, porque não havia sinais de arrombamento na casa e nós aguardamos mais informações para poder continuar as investigações”, frisou Nercília Dantas.

No local onde a mulher morava a polícia apreendeu vários livros. A delegada explicou que, até o momento, não se sabe qual profissão a vítima exercia, mas que ela tinha hábito de escrever. “Todo esse material foi levado para ser analisado pela polícia, pra gente ver se tem alguma pista, se houve algum atrito, algum problema passional”.

Sobre quem teria cometido o crime, a delegada disse que ainda é cedo para apontar algum suspeito, mas pode ser um crime cometido por alguém que se relacionava com a vítima. “A cena do crime é o que a gente chama de ‘cena suja’, com bastante sangue, mas não há como concluir nada nesse momento, as investigações estão apenas começando”, concluiu.

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